o voo do dragão

 

Revista Jurídica Consulex nº 344
Painel Econômico

David Kupfer
Professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Coordenador do Grupo de Indústria e Competitividade (GIC-IE/UFRJ).

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15/5/2011

O VOO DO DRAGÃO

O 12 º plano quinquenal, recém-aprovado pela Assembleia Popular Nacional da China, que deverá guiar o país no período 2011-2015, e cujas linhas mestras já são de conhecimento público desde o ano passado, é ambicioso e complexo: visa nada mais, nada menos, que promover uma guinada no padrão de crescimento da China.

São três as palavras-chave enfatizadas: equilíbrio econômico, inclusão social e desenvolvimento verde (e pacífico). As duas últimas, que envolvem, respectivamente, temas como mais proteção social, saúde e segurança para os cidadãos chineses, e mais sustentabilidade ambiental e menos carbono para o país e o planeta, são, sem dúvida, as grandes – e auspiciosas, se efetivas – novidades do Plano. Porém, à parte dessas palavras de ordem, até então pouco ou nada presentes na retórica das autoridades chinesas, será do objetivo de equilíbrio que certamente virão os impactos mais imediatos sobre a economia mundial.

A meta declarada pelo Plano é promover uma redução no ritmo do crescimento quantitativo (para “somente” 7% do Produto Interno Bruto ao ano), a fim de proporcionar mais crescimento qualitativo, reduzindo a dependência da economia às exportações e ao influxo de investimento direto externo, virando o polo dinâmico para o gigantesco e ainda pouco explorado mercado interno chinês.

Como não poderia deixar de ser, a transformação-chave para viabilizar esse novo padrão é posta em um peso crescente no desenvolvimento científico e tecnológico e na inovação (ampliação do gasto em P&D, de 1,5% para 2,5% do PIB), e na menor ênfase no baixo custo como fator determinante da competitividade chinesa (15% do PIB originário de novos setores de alta tecnologia). Para o Brasil, as implicações de uma guinada chinesa dessa envergadura, caso venha efetivamente a ocorrer, são preocupantes.

Não se pode perder de vista que, quando Brasil e China se enfrentam no mercado internacional, o confronto se dá em três níveis distintos. O primeiro nível é o do confronto industrial propriamente dito. Nesse nível, a vantagem é claramente da China, que conta com tecnologia, organização e, principalmente, escalas produtivas muito mais capazes de induzir eficiência e produtividade vis-a-vis o sistema produtivo brasileiro. O segundo nível é o do confronto entre economias. Nesse nível, entra em questão a competitividade sistêmica, que reflete a influência positiva ou negativa dos regimes macroeconômicos, financeiros, tributários etc.

Atualmente, é nesse nível que a China literalmente esmaga seus concorrentes, brasileiros ou não, e é exatamente na sua manutenção que o Plano Quinquenal está mirando. Por fim, resta ainda o terceiro nível, o confronto entre sistemas políticos. Aqui também é desigual o grau de planejamento e coordenação de decisões atingido pelo sistema chinês, que não pode ser sequer arranhado pela sociedade brasileira, que perdeu as suas instituições voltadas para pensar o longo prazo e ainda se vê às voltas sobre como reconstruí-las.

Desde 2010 a China já é o principal parceiro comercial brasileiro e tende, rapidamente, a se tornar uma das principais origens dos investimentos estrangeiros no Brasil. Como os números amplamente conhecidos demonstram, esses exuberantes fluxos de mercadorias e capitais escondem uma radical assimetria: do Brasil para a China, cada vez mais matérias-primas; da China para o Brasil, cada vez mais produtos manufaturados. Um exercício quantitativo muito simples, ainda que desprovido de qualquer validade preditiva, ajuda a pintar o problema com as tintas corretas.

Basta imaginar que se a corrente de comércio bilateral entre Brasil e China, que evoluiu nos últimos dez anos de US$ 1,9 bilhão para US$ 30,7 bilhões, no sentido Brasil-China, e de US$ 1,3 bilhão para US$ 25,6 bilhões, no sentido inverso, mantivesse exatamente a mesma taxa de expansão pelos próximos dez anos, em 2020 essas exportações chegariam a fantásticos US$ 1,1 trilhão e US$ 722 bilhões, respectivamente. Noves fora os números absolutos, o que interessa é que a China seria o destino de 68% das exportações brasileiras, enquanto o Brasil representaria minguados 5,3% do mercado externo chinês.

É essa assimetria que torna crucial construir saídas para evitar a consolidação de uma relação de dependência, em todos os aspectos indesejável. As possibilidades de ação do governo brasileiro, com vistas a romper o imobilismo que a equação macroeconômica vem impondo, não são muitas, nem muito diferentes das que vêm sendo praticadas no período recente. O que surge de novo é um espaço para o Brasil atuar mais decididamente no front das relações internacionais, visando abrir novos mercados para os produtos brasileiros.

A viagem da Presidenta Dilma à China deve ser vista nesse contexto. Porém, o resultado positivo alcançado não deve ofuscar a dimensão e a complexidade do caminho que ainda precisa ser percorrido pelo Brasil para se posicionar adequadamente no novo mundo bipolar que EUA e China estão desenhando. Se hoje a vantagem chinesa já é avassaladora, não será com ações pontuais, mesmo que favoráveis ao País, como os acordos em torno de Embraer, Foxconn e congêneres, que se conseguirá neutralizar as extensas assimetrias que estão se acumulando e irão se aprofundar quando o dragão chinês alçar voo.

 

 

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